Nem de dirigir eu gosto

Tive um namorado que amava dirigir, e sempre que saíamos juntos, ainda que no meu carro, o volante era dele. Nessas ocasiões, eu ocupava o lugar mais confortável de se estar: no banco de passageiro, com o vidro abaixado, deixando o vento entrar e escolhendo as próximas músicas a tocarem na playlist.

De alguma forma, ele dirigir pra mim virou um conforto. Às vezes eu preciso de incentivo para sair e fazer alguma coisa do meu dia, e não ter que lidar com o carro facilitava esse meu embate. Eu só tinha que sentar e escolher a música — a parte prazerosa de estar ali, para mim.

Ele gostava que eu escolhesse as músicas inicialmente, mesmo se ele não as conhecesse. Lembro que um dia ele até falou: “coloca sua playlist, você sempre sabe o que tocar”. Era confortável estar com ele.

Nos momentos sem ele — que eram longos, muitas vezes, porque esse era um namoro à distância — eu dirigia meu próprio carro, e às vezes, no meio do caminho, pensava que queria que ele estivesse ali dirigindo pra mim.

Nos dias que eu passava com ele, com frequência, em dias que não tínhamos nada para fazer, eu sugeria: “vamos passear de carro?”. Com ele, eram meus passeios preferidos. Ele aproveitava para dirigir ao redor do Plano Piloto, me mostrar o bloco que ele morou na Asa Norte, quando era criança, e as quadras que ele brincava com os amigos, falava como aquela área era dominada por crianças, e como estranhava hoje em dia ser tão vazia.

A gente passeava de carro, eu colocava umas músicas dos anos 2000, que diziam algo sobre minha infância e sobre a pessoa que eu sou hoje, e ele passava pelas ruas que construíram quem ele é hoje. Conheci o Setor Noroeste, onde o primo dele mora, local de habitação indígena que foi desocupado para os brasilienses ricos morarem. Concordamos que nós nunca iríamos morar num lugar daquele.

Não tinha muitos semáforos no caminho, o que deixava os passeios sempre melhores quando estávamos na cidade dele, e com ele.

Ele veio na minha cidade pela primeira vez, e ainda aqui dirigiu pra mim. Dirigiu até pra minha melhor amiga, que normalmente também dirige pra mim. E então um dia eu dirigi.

Minha cidade tem muitos semáforos, o carro estava sempre parando. No caminho pra minha casa, por dentro do meu bairro, também passamos por ruas paralelepípedas. Dirigi pra ele na minha cidade e ele ficou tonto. Eu lembro de rir e de achar graça, de chamar ele de “menino de apartamento”, e dizer que Brasília não é a vida real.

Mas eu dirigi meu carro nesse dia, na minha cidade, e ele ficou tonto. E confesso, até eu mesma fico tonta. Nem de dirigir eu gosto, mas com ele, na cidade dele, parecia mais confortável — porque realmente era mais confortável.

Ocupar o banco do passageiro, escolher as músicas e olhar pela janela é confortável. Dirigir exige atenção e responsabilidade, além do esforço físico. Não dá para entender pessoas como esse namorado, que preferem estar conduzindo, quando no banco do passageiro, se eu quiser, eu posso até deitar e colocar os pés para cima, me deixando ser levada para onde quiserem.

E eu fiz isso, de certa forma, não fiz? Me deixei ser levada, me deitei numa posição confortável, abaixei os vidros, escolhi uma música, fechei os olhos, e confiei na maestria de quem dirigia. Até que quem dirigia começou a pedir pra eu trocar a música que estava tocando, colocar out playlist, ou se tornar mais resistente quanto a passeios de carro sem rumo, porque não fazia muito sentido e gastava gasolina.

Chegou um ponto que a posição de passageira já não era mais tão confortável assim, mas ainda era o lugar conhecido, e ainda era com o namorado, até que ele não quis mais que fosse comigo.

E tudo bem, porque eu também sei dirigir, e talvez devesse ficar mais alerta ao deixar outra pessoa dirigir por mim, porque nunca sabemos onde ela vai me levar, ou qual atalho ela quer pegar, e qual música ela quer ouvir, por mais que a gente confie e acredite saber.

Quem está dirigindo é quem escolhe o caminho, e uma hora esse namorado escolheu o dele para longe de mim… E depois escolheu de volta para mim.

Mas agora eu preciso escolher não deitar nem fechar os olhos no banco do passageiro, mas sim estar alerta e ativa no volante, dirigindo meu próprio carro e escolhendo minhas próprias músicas.

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Tem uma visão romantizada sobre a vida.

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Aline Dávila

Aline Dávila

Tem uma visão romantizada sobre a vida.

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