Nunca tive portaria

Tive uma amiga que morava perto da minha casa e sempre que eu precisava de algo emprestado ou pegar de volta algo meu que estava na casa dela eu pedia que ela deixasse na portaria.

Ela nunca deixava.

Quando ela precisava de alguma coisa minha, eu costumava ir até a casa dela para deixar. Afinal, ela morava perto de mim, não era penoso para mim facilitar as coisas.

Quando eu precisava de algo, eu também ia até a portaria dela. Chegava lá já sabendo que, conhecendo minha amiga, ela não havia deixado o que eu precisava com o porteiro e eu precisaria sair de casa um pouco mais cedo para subir até o apartamento dela e procurar aquilo que eu estava precisando sem me atrasar para onde quer que eu fosse.

Mas tudo bem, eu não tinha uma portaria, e por muito tempo acreditei que ela não vinha até minha casa entregar algo por esse motivo, não era tão prático.

Foi uma amizade longa, com o tempo a falta de portaria se tornou motivo para ela não vir nos finais de semana que eu convidava para algo. Era perigoso não ter um porteiro observando ela chegar na minha calçada.

E tudo bem, eu posso ir até a casa da minha amiga, é mais seguro para ela e até para mim, vou ter um porteiro vendo eu chegar.

Passou mais um tempo… a portaria era motivo para não fazer “agrados” que eram feitos a qualquer outro amigo. Não tinha como deixar um doce no meu portão sem um porteiro para receber.

Eu acreditei que a falta de portaria tentava afastar quem devia ser presença, e sempre num movimento compensatório, eu me dirigi até ela, mas o porteiro dela já não lembrava o meu nome.

Depois de algum tempo, sempre que eu chegava o porteiro precisava interfonar, porque minhas idas já não eram frequentes.

De repente outras coisas viraram portaria nessa relação.

A piada que eu não ri porque o motivo era eu virou o porteiro ligando perguntando se “Aline” poderia subir.

O ano novo em que todos estavam convidados mas a minha presença ainda precisava ser confirmada com o dono da casa virou o número do apartamento que eu nem lembrava mais.

O role que todo mundo ia no final de semana mas que esqueceram de me chamar porque não devia fazer meu estilo virou o desconforto ao subir para devolver qualquer coisa que eu precisava devolver e me deparar com aquela velha amiga sem saber como cumprimentar.

A portaria foi começo e, talvez, se eu não tivesse subido tantas vezes para pegar de volta o que deveria ter sido entregue em minha casa, ela não tivesse virado final.

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Tem uma visão romantizada sobre a vida.

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