Orientação profissional aos 23?

Imagem do Instagram @cococapitan

Teve um dia da semana passada que eu comi demais, bem mais que o normal, a cada 30 minutos eu ia até a despensa procurar alguma coisa para comer, de preferência doce.

Antes de ontem eu não consegui dormir. Desliguei meu celular antes de meia noite para tentar, mas quando cansei de brigar contra meus pensamentos e resolvi checar por quanto tempo eu estava tentando, já eram duas e quarenta da madrugada e eu não tinha dormido nem por vinte minutos.

Passaram vários dias há cerca de dois meses em que ocorria o contrário, eu não comia nada e dormia demais — em qualquer horário do dia, menos na hora de dormir.

E vários desses dias eu me perguntei se a vida continuaria sendo só isso, esse esforço entre achar um equilíbrio entre comer demais, comer de menos, dormir demais, dormir de menos…

Entre um período e outro desses altos e baixos, eu pensava comigo mesma: “tenho outras coisas para focar agora. A prova da OAB está chegando, vou estudar, depois eu lido com isso”.

E a OAB chegou mesmo, a primeira fase eu não sei nem como, acho que cheguei lá com uns cinco quilos a menos em relação ao que cheguei no meu primeiro dia de aula no início do curso em 2017.

Na verdade eu nem sei, porque em 2017 eu estava lidando com outros empasses e não era como se eu tivesse algum equilíbrio entre dormir, acordar e comer ou não comer naquela época também.

Quando cheguei na segunda fase as coisas pareceram até mais fácil, porque era como se eu não tivesse que pensar. Digo, precisava pensar no que estudar, e como bater o cronograma de estudos daquele dia, mas isso era uma ótima desculpa para literalmente não pensar sobre todas aqueles pensamentos que desequilibram meu sono e a minha fome.

Então a segunda fase passou, e eu nem sei ainda se passei, mas desde então as coisas ficaram bem mais difíceis. Toda aquela neblina escondendo tais pensamentos foi embora, agora eu já não teria mais desculpas para falar sobre isso na terapia.

Inicialmente, foi um alívio sair da prova e pensar: “bem, já foi, e seja o que for eu nunca mais quero pensar sobre direito na vida, só vou me formar agora do jeito que der e focar no que eu realmente quero fazer”.

Mas e então? O que eu quero fazer?

Minha terapeuta diz que estou vivendo uma crise existencial muito comum entre mulheres de quarenta anos. Disse que é comum adultos nessa faixa etária repensarem todas as escolhas profissionais e já estarem tão consolidados ou especialistas em uma área que não enxergam uma saída naquilo.

O único problema é que eu tenho vinte três anos, quatro meses e seis dias. Muita gente nessa idade não sabe o que quer, certo? Ou sabe mais ou menos, mas não tão bem assim. Ou está fingindo que sabe. Ou nem está muito preocupado se sabe ou se não sabe.

Mas eu fiquei tanto tempo fugindo do que eu quero, ou do que eu achava que queria, ou do que eu já sabia que não queria, que agora é como se eu tivesse caído na minha própria cilada.

E dá raiva de mim mesma. Olho para trás, para a Aline de dois mil e dezessete que entrou no curso de Direito, e tenho vontade de gritar com ela: “como assim você já sabia que não queria um concurso público naquela época, também sabia que não queria advogar, e ainda entrou num curso que te guia para esses dois caminhos?”.

“Como assim você já sabia que odeia formalismos, seja na maneira de falar, escrever, se portar ou se vestir, e entrou no curso mais tradicional que existe?”.

Olhando para trás, parece até que eu já sabia de tudo, só que no presente parece é que eu não sei de nada.

A raiva sobra até para a minha terapeuta, que está comigo há quatro anos, me conhece mais que muitos amigos, e nunca me avisou que eu mesma já sabia que não tinha nada a ver com Direito.

Caramba, custava ter mandado um “se liga”? Por que você deixou eu descobrir isso sozinha depois de quase cinco anos de curso?

Fico tentando buscar culpados. Por que ninguém me avisou que não ter prazer em algo que você vai fazer pelo resto da sua vida não deveria ser o normal?

Não tinha nenhum amigo para me avisar?

Chego aos vinte e três anos e vem a sugestão da terapeuta: “vamos iniciar um processo de orientação profissional”, seguida de um “e aquela história do psiquiatra? você adiou? acho que está na hora de você buscá-lo”. E aqui estou, esperando até a próxima quarta, às 14h para entrar num consultório e tentar descobrir o que fazer da minha vida, e esperando mais um mês para ver se melhoro e consigo adiar o plano do psiquiatra por mais um ano.

Eu sei que provavelmente eu não vou achar essas respostas. Esses dias eu li, ou ouvi num Podcast, ou no Youtube (ando consumindo tanta coisa online, que nem sei mais de onde vem cada informação), que o segredo é se colocar no mundo lá fora, fazer coisas que você gosta, arriscar.

Mas sabe a verdade? Eu nunca soube muito bem do que eu gosto. Eu tenho a impressão de que normalmente as pessoas são estimuladas a descobrirem aquilo que gostam e quais são seus hobbies durante a infância.

Muitas crianças fazem aula de canto, meia dúzia de esportes, pintura, várias dessas coisas, e eu não tenho muitas memórias de ter vivenciado essas escolhas quando mais nova, então me pego aos vinte e três anos, quatro meses e seis dias tendo que descobrir, à esta altura, do que eu gosto de fazer, e tudo parece uma grande perda de tempo.

O problema da ansiedade, do não comer ou comer demais, não dormir ou dormir demais, ou fazer qualquer coisa demais ou de menos, é que — pelo menos para mim — ela sempre leva meu cérebro para aquele lugar desconfortável, pensando que tudo o que eu fiz no passado foi uma perda de tempo, e que agora eu estou estancada, atrasada cinco anos na minha vida em relação a todos os outros.

Mas será que eu estou mesmo? Eu nem sei. Meu lado racional quer acreditar que não, minha terapeuta insiste que não, meus amigos nem sabem desse dilema, meus pais muito menos. Então é isso, eu nem sei, mas estou doida para descobrir.

Desconfio que o caminho não vai ser muito bonito, pelo menos pela minha experiência do ano passado até aqui, acho que não vai ser nada bonito, mas espero que o resultado seja positivo. Acho que uma coisa que nunca me faltou foi coragem para descobrir.

Estou perdida mesmo, orientação profissional aos vinte e três não deveria ser um gatilho, comer demais ou de menos não deveria ser uma realidade, e ter estágio amanhã de manhã numa área que eu não estou feliz não me parece muito animador, mas vamos ver até onde eu consigo ir, talvez pelo menos evite a orientação profissional aos quarenta e tantos e o psiquiatra antes dos trinta.

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Tem uma visão romantizada sobre a vida.

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Aline Dávila

Aline Dávila

Tem uma visão romantizada sobre a vida.

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