Sobre Atos de Coragem

Algum dia no primeiro mês dessa quarentena, quando eu ainda achava que seria um fator passageiro e via os dias dentro da minha casa com um prazer genuíno, eu encarei a piscina para pular ali dentro e competir natação comigo mesma.

Não me lembro ao certo se a natação foi o primeiro esporte que eu pratiquei na vida, mas com certeza foi o esporte que pratiquei por mais tempo. Ao encarar a piscina eu me deparei com um medo que, nos meus anos de natação — arrisco dizer que há 10 anos atrás — jamais existiria.

Eu estava com medo de mergulhar na piscina de cabeça.

Naquele momento, pensando se mergulhava de cabeça, comecei a pensar que talvez eu pulasse longe demais e batesse na borda — mesmo sendo fisicamente impossível eu pular tão distante assim até o outro lado — ou que talvez eu iria mergulhar fundo demais e ia entrar água no meu nariz, ou que talvez só não faria tanta diferença assim eu mergulhar da piscina e assumir um risco mínimo, se eu tinha a opção de começar a nadar já estando dentro dela — afinal, eu só estava competindo comigo mesma.

A esse ponto dos meus próprios pensamentos, eu já tinha entrado na piscina e desistido da competição antes mesmo de começar. Comecei a flutuar e refletir que, anos atrás, no meu tempo de natação, eu pulava de cima de trampolins e atravessava piscinas olímpicas em competições. Eu mergulhava de cabeça em piscinas olímpicas de 100m, e nenhum desses medos sequer cruzavam meus pensamentos.

Eu não sentia tanto prazer na natação a ponto de ser minha atividade preferida, mas também não me trazia nenhum medo. Aliás, eu não me lembro do medo ser muito presente na minha vida anteriormente, até ele se tornar tão presente.

Falando sobre medos, quando eu tinha 12 anos, minha tia-avó me convidou para passar cerca de 1 mês com ela na Argentina, para visitar meus primos. Na realidade, ela convidou a minha irmã mais velha, que na época tinha 14 anos, mas a minha irmã recusou o convite e eu insisti para minha mãe me deixar ir em seu lugar.

Olhando para trás, eu não sei de onde veio essa vontade, mas eu sei que não havia nenhum motivo para não segui-la. Sempre que eu lembro de medos, de onde eles surgem e quando que a gente percebe que eles estão ali, eu lembro dessa viagem.

Foi uma viagem muito boa, eu saí do país pela primeira vez, viajei sem os meus pais, participei de colônia de férias com crianças argentinas que se interessavam pelo meu idioma diferente e pela cultura desconhecida que estava ali diante delas. Visitei parques, restaurantes, zoológico, cinema, foi uma experiência única.

Voltando um pouco mais atrás na linha do tempo, aos 9 anos de idade, estando no ápice do fandom da banda Rebelde, minha irmã pintou o cabelo de vermelho para imitar a Roberta. Eu chorei como um bebê, me escondi de baixo da cama e só sai quando minha mãe prometeu que no dia seguinte eu iria pintar meu cabelo de vermelho também.

Não havia medo de mergulhar na piscina naquela idade. O medo era não mergulhar. O medo era não pintar o cabelo, não viajar. Simplesmente não mergulhar.

E se mergulhasse e batesse na borda, ou se mergulhasse e a água no nariz incomodasse? Não importava, eu já tinha mergulhado.

Bom, muitos anos e experiência de vida depois, eu fechei o segundo intercâmbio da minha vida (ou terceiro, se contar essa minha primeira experiência na argentina como um intercâmbio). Eu tinha 20 anos na época que ia viajar, fechei um intercâmbio com uma colega minha da faculdade — que não era assim tão próxima — com o destino para a Argentina — que por algum motivo eu senti que era a escolha correta, mesmo tendo várias outras opções — com a intenção de realizar um voluntariado numa ONG com crianças e adolescentes.

Cerca de dois meses antes de viajar eu ainda não tinha preparado nada. Não havia brilho nenhum nos meus olhos sobre realizar aquele intercâmbio (e quem me conhece sabe que, quando se fala de intercâmbio, sempre tem um brilho nos meus olhos). Eu estava perfeitamente satisfeita com a minha vida, minha rotina de ir para a faculdade, estágio e estar com minhas amigas em todo o meu tempo livre nunca tinha me parecido tão confortável.

Quase todos os dias eu saia para tomar açaí com minha melhor amiga, minhas manhãs na faculdade sempre eram maravilhosas, eu amava minhas aulas, amava meu grupo de amigos, no final de semana ia para calouradas, me divertia e estava pronta para retomar esse ciclo na segunda feira.

Foi aí que veio o medo de mergulhar, ou pelo menos foi aí que eu percebi que esse medo existia.

Dessa vez o medo era de mergulhar e ir longe demais — mesmo novamente sabendo que isso seria fisicamente impossível, assim como pular de uma borda a outra na piscina. Afinal, a Argentina é aqui ao lado, o intercâmbio seria só por 06 semanas. Qual o medo, Aline?

Eu cheguei a falar com a minha mãe um dia, disse que não estava fazendo questão dessa viagem, que se ela preferisse poderíamos adiar. Eu poderia ir no final do ano, ou nem ir mais, não era uma prioridade, sabe? Minha mãe estranhou de imediato: “que história é essa que você não quer mais viajar?” seguido de um “você vá agora, depois você não sabe como vai estar sua vida pra estar viajando” e mais um “ja paguei, agora você vai sim”.

Bom, dois meses depois eu estava mergulhando na Argentina mais uma vez. Comprei a passagem de ida para chegar exatamente no dia que começaria o voluntariado e a passagem de volta exatamente no dia que acabava minha obrigação la. Nem um dia a mais, nem um dia a menos. Seria o suficiente.

Na quinta semana de viagem eu ligava para os meus pais perguntando se eu não poderia extender a minha viagem por uma semana a mais, porque só o tempo de cumprir minhas obrigações não era o suficiente para voltar para a “borda da piscina” depois de ter mergulhado tão longe.

Bom, a resposta dos meus pais foi “não”, e seis semanas depois de mergulhar, eu saía daquela água com uma colega não tão próxima da faculdade que agora seria parte das minhas melhores amigas (daquelas que eu posso dizer que vai ser para a vida toda, sabe?), tendo morado em um hostel e convivido com pessoas de dezenas de culturas diferentes simultaneamente, tendo também morado em host family e tido a melhor irmã argentina que eu poderia ter.

Voltei para a borda da minha piscina com um grupo de amigos que redefiniram a maneira como eu estava olhando para dentro de mim, me sentindo querida e capaz de subir na borda quantas vezes quisesse para mergulhar de novo o mais fundo ou distante que eu pudesse e nunca mais ter medo de um mergulho de novo.

Foi aí que eu entendi que cada mergulho na minha vida seria um ato de coragem. Eu sempre vou poder escolher entre entrar na piscina com cuidado e nadar de um lado para o outro, ou entrar na piscina e apenas flutuar, do mesmo modo que eu sempre vou poder escolher ir para a borda e mergulhar de cabeça, com os riscos de me machucar ou de simplesmente não estar confortável naquele mergulho e voltar para a superfície.

Depois dessa viagem para a Argentina, muitos outros mergulhos vieram pela frente, alguns eu achava que seriam rasos, mas terminaram sendo muito fundos, outros eu achava que seriam profundos, e terminaram sendo rasos, e alguns eu achei que seriam serenos, no entanto foram muito tempestosos.

Também vieram muitos outros medos — medo de altura nunca esteve tão presente (ainda é difícil pular de um trampolim agora que sou adulta), medo de me formar na faculdade, medo de não atingir o que eu procuro, e até mesmo medo de nem saber o que é isso que eu busco.

O resultado do mergulho no final das contas nunca esteve sob o meu controle, mas o ato de coragem de mergulhar de cabeça sempre foi minha decisão, e é com esse mesmo impulso e vibração que só quem toma atos de coragem sente, que eu respiro fundo e publico esse texto hoje, depois de encarar a borda da minha piscina por mais três meses de quarentena, agora já me conformando que talvez não seja um fator tão passageiro assim.

Lembrança do meu ato de coragem na Argentina em 2018 com minha “ex-colega” e, agora, amiga Carol.

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Tem uma visão romantizada sobre a vida.

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Aline Dávila

Aline Dávila

Tem uma visão romantizada sobre a vida.

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