Talvez a janela tenha que ficar fechada

Na minha casa, todo mundo tem uma rotina muito clara. É quase um comercial de margarina: aqueles que acordam, colocam as cadelas para dentro de casa, brincam com elas, tomam um banho enquanto a água do café esquenta, e sentam juntos à mesa para começar o dia.

Como boa pessoa noturna e com dificuldades de manter uma rotina de café da manhã saudável, eu nunca me adaptei muito bem a esse estilo, e a forma da minha mãe de me obrigar a estar presente foi, por muito tempo, entrar no meu quarto e abrir a minha janela.

Dormir com a janela fechada, para mim, nem começou com o objetivo de impedir a luz de entrar ou de dormir até tarde — até sempre invejei e nutri um desejo de conseguir fazer parte desse comercial de margarina chamado minha família.

Na verdade, esse costume de fechar a janela começou quando eu era criança e a minha babá disse para eu fechar a janela quando fosse deitar, porque uma vez no bairro dela dois homens ficaram observando as vizinhas enquanto elas dormiam.

Fechar a janela, naquele momento, era um ato de proteção. Eu era criança, mas ainda assim lembrava desse relato sempre que deitava a cabeça no travesseiro. Desde então, passei a fechar a janela, e a luta interna passou a ser sobre achar formas para abri-la.

Eu quis muito ser a pessoa que acorda com a luz entrando no quarto, que coloca as cadelas para dentro, que esquenta a água do café e toma um banho antes de sentar à mesa e conversar com minha família sobre o que eu espero do meu dia.

Dormir com a janela fechada nasceu de um medo, de uma proteção, de um inconsciente de vulnerabilidade em ser mulher que desde cedo a gente sente, e só depois aprende o que significa, mas continuar com a janela fechada foi, e continuou sendo, uma escolha.

Aos poucos, durante o último mês, eu passei a deixar a janela aberta. E durante todos os dias em que assim o fiz, eu acordei durante a madrugada.

Talvez não fosse a janela em si que me acordasse, talvez uma certa ansiedade, talvez a representatividade da tentativa abrupta de mudar algo em minha vida, de ser mais corajosa, de iniciar um novo ciclo. Mas depois de um mês de tentativa, a janela agora está fechada.

Eu voltei a fechar a janela, e minha mãe já não abre mais ela para mim.

É minha opção escolher a hora de abrir.

Não abrir a minha janela, talvez, seja uma questão de que eu só não quero dormir com a janela aberta.

Mas esse é um texto cheio de “talvezes”.

Então talvez eu só não esteja pronta para abrir essa janela.

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Tem uma visão romantizada sobre a vida.

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Aline Dávila

Aline Dávila

Tem uma visão romantizada sobre a vida.

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