“Tenho que me levar mais a sério”

– dizia ela para si mesma às 23h27 de uma terça feira enquanto decidia pela milésima vez que “dessa vez é sério, vou começar a postar textos toda semana”, sabendo que estava sabotando uma possível boa noite de sono por se permitir ter um daqueles surtos de “agora é a hora de mudar minha vida! chegou a inspiração que me faltava! nunca mais vou ser improdutiva” que ela já sabia que se transformaria em uma quarta feira cansativa.

Mas tudo bem, talvez esse lapso de produtividade. não seja momentâneo e ela, dessa vez, realmente se torne a melhor versão de si mesma e comece acordar às 06h todos os dias, não falte mais aos treinos e nem pule nenhuma refeição.

Qualquer uma dessas coisas vai ser só um efeito colateral, o objetivo dessa vez é um só: a pessoa que narra acaba de decidir que essa é a hora de escrever em terceira pessoa.

“Essa deve ser a fórmula do sucesso” – ela pensou consigo mesma – “será assim que as pessoas param de ser amadoras supostas criadoras de conteúdo num site que terceiriza sua escrita e passam a ser escritoras renomadas?”.

Talvez seja pelo terceiro livro em menos de um ano da Sally Rooney que ela resolveu começar a ler – dessa vez quase como uma análise clínica – dissecando os parágrafos, as escritas, as falas e a construção de cada personagem.

Que diferença isso faz de qualquer forma? Que história é essa de escrita profissional?

Algum escritor de verdade ganhou a vida querendo ser escritor ou ser escritor foi só algo que ganhou a vida dele?

Talvez seja assim que se escreve um livro, mas ainda nem cheguei ao final de uma página e intuitivamente meu texto sobre escrever em terceira pessoa já virou um texto em primeira pessoa. Tem como o único personagem do meu livro ser eu mesma?

E ainda que tenha, que escritora não consegue terminar uma página na terceira pessoa?

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Tem uma visão romantizada sobre a vida.

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Aline Dávila

Aline Dávila

Tem uma visão romantizada sobre a vida.

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